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"Literatura, às vezes", por Woden Madruga
Aqui e acolá, no meio da conversa, um de nós ainda arrisca um comentário sobre o Encontro de Escritores havido aqui semana passada. A promoção da Prefeitura tem prós e contra. Mais prós. A maioria aprova a proposta, mas discorda do modelo. Quando eu falo maioria estou me referindo ao pessoal ligado à literatura que, aliás, foi o público menor do evento. Mas um contingente bom, de qualidade. Talvez uns setenta por cento devem ter descido à Ribeira para ver a badalação em torno dos espetáculos musicais de Tom Zé e Zé Baleiro. Diria Jackson do Pandeiro que havia muito Zé na rua Chile. Havia, sim. Um dia os promotores do Encontro haverão de separá-los e aí teríamos a Literatura sendo tratada como ela deve e precisa ser. Aliás, esse descuido não é somente mau hábito da província. Também acontece nas metrópoles. O escritor Ronaldo Correia de Brito, um dos expositores do Encontro, disse que a Bienal Internacional do Livro de Recife, deste ano, tinha muito mais eventos musicais, mais maracatu do que literatura. O livro, apesar da bienal ser dele, ficou em plano inferior.
Eu, que ando meio arredio dessas aglomerações, gostei muito de me reencontrar com velhos amigos e companheiros, entre eles autores de minha particular predileção, num almoço que foi oferecido pelo prefeito Carlos Eduardo Alves na Peixada da Comadre. Lá estavam, por exemplo, Fernando Monteiro, Francisco Dantas e Maria Lúcia Dal Farra, Jaguar - que anda por estas terras de Poti mais saudosas, derna do tempo em que Henfil morou, coisa de trintanos atrás, naquela mesma Ponta do Morcego onde estávamos ali reunidos -, Luís Fernando Veríssimo, Luís Carlos Maciel, Sérgio Cabral e Ruy Guerra, outra roda. No centro, em torno do prefeito, Villas Boas Corrêa e Agnelo Alves. O peixe estava muito bom, o pirão idem. Duas marcas inconfundíveis da Comadre.
Enquanto o peixe não chegava foi-se conversando. E quando foi servido, o papo prosseguiu, cordial, animado, inteligente, gostoso. Fernando Monteiro, pernambucano da melhor cepa e romancista de maralto (do melhor escrete nacional, atualmente no aguardo do lançamento, pela Editora Francis, da sua "Trilogia Graumann" completa, com O grau Graumann, As confissões de Lúcio e o inédito A intrusa na sombra), foi um dos debatedores do tema "Apropriações da escritura literária", no dia da abertura do Encontro. Me falou de um texto que leu durante a sua fala, ilustrada com trechos de uma conferência que o poeta alemão Günter Kunert fez na Feira de Frankfurt, um dos eventos literários mais importantes do mundo. O foco é, mais ou menos, o que temos conversado nos últimos dias sobre essas megapromoções em torno da arte na qual a literatura vai cedendo lugar para outras manifestações da criação artística e quase submissa às modernas tecnologias da comunicação e do lazer. Ou a literatura vai, quem sabe, perdendo para a própria literatura. Transcreverei alguns trechos da conferência de Kunert, cedidos por mestre Fernando:
- Nos difíceis velhos tempos, que por causa da importância abrangente da arte eram bons tempos, um livro ainda provocava discussões, uma exposição, polêmicas, uma representação teatral arrebatava o público. Águas passadas... Ficou somente a questão da atribuição de culpa. A culpa é nossa, dos leitores, dos espectadores, ouvintes, de ficarmos tão pouco impressionados, ou a responsabilidade cabe às obras, aos autores?
- A cultura continua em expansão, constroem-se museus, apresenta-se em número cada vez maior de livros nas feiras como esta (Frankfurt), realizam-se concertos - e apesar disso manifesta-se como que uma sensação de abatimento (...) As atividades ainda continuam. Publicam-se livros, escrevem críticas, mas tem-se a impressão de que as atividades se esgotam no vazio. Ontem impresso, hoje lido, amanhã esquecido. A prova dos noves é tentar lembrar-se das próprias leituras de cinco ou dez anos atrás (...)
- Não somos mais os mesmos leitores de ontem. Nossa atenção mudou, juntamente com as paixões (...) Não se trata aqui de uma "reprimenda à técnica", nem de queixas e lamentações sobre a cultura; trata-se de tentativa de investigar as transformações da arte, da literatura e as dos leitores, pois essas transformações condicionam-se e fomentam-se mutuamente.
- Embora tenhamos mais tempo livre, falta-nos sossego para aproveitá-lo. Nosso biorritmo individual, influenciado pela aceleração crescente de nossa maquinaria social, não corresponde ao processo já arcaico de ler com calma.Faz tempo que estamos contagiados pela impaciência, pela inquietação, que exige uma distração cada vez mais intensa, estímulos mais fortes, para ser suportada.
- Mal a gente abre a primeira página de um livro, já vão brotando nas rotativas das editoras os novos lançamentos, pedindo para ser comprados. A produção de livros foi engolida pelo sorvedouro da produção em massa generalizada, o que naturalmente não ficou sem as conseqüências correspondentes (...) De forma alguma a aceleração do ritmo deve ser atribuída à aceleração geral dentro da sociedade. Ela é produzida por um motor que excede tudo o que existiu até hoje, no que diz respeito à produtividade pseudo-artística: a televisão. |